AGERH - Janeiro Branco: o RH também está sendo cuidado dentro das organizações?

Janeiro Branco: o RH também está sendo cuidado dentro das organizações?

05, Feb. 2026


O Janeiro Branco é um movimento de conscientização que nasceu no Brasil em 2014, idealizado pelo psicólogo Leonardo Abrahão com a intenção de aproveitar o início do ano — uma “folha em branco” no calendário — como um convite para refletirmos sobre a nossa saúde mental e emocional. A ideia é que este período seja usado para olhar para dentro e escrever uma nova história de autocuidado e bem-estar psicológico, tanto na vida pessoal quanto no ambiente de trabalho. 

No contexto organizacional, essa reflexão ganha um significado ainda mais importante. O Brasil apresenta indicadores preocupantes de saúde mental no trabalho: uma pesquisa recente apontou que 86% dos profissionais brasileiros já enfrentaram problemas de saúde mental relacionados ao trabalho, incluindo estresse, ansiedade e insônia. 

Dentro desse cenário, o papel do Recursos Humanos (RH) é desafiador e central. O profissional de RH está na linha de frente da gestão de pessoas, responsável por conectar estratégias organizacionais com o bem-estar dos colaboradores. Ao mesmo tempo em que impulsiona ações voltadas à saúde mental dos outros, muitos desses profissionais convivem com altos níveis de sobrecarga, estresse emocional e trabalho excessivo.

Estudos nacionais indicam que 82% dos profissionais de RH relatam sentir sobrecarga de trabalho, com 55% trabalhando mais de oito horas por dia, e 65% afirmando ter enfrentado algum problema de saúde mental no último ano. Outra pesquisa reforça essa realidade ao mostrar que 78% desses profissionais reportam carga emocional intensa, evidenciando a pressão constante enfrentada pela área. 

Além desses dados brasileiros, estudos internacionais também destacam o desgaste emocional dos profissionais de RH. Parte das pesquisas aponta que muitos deles consideram o trabalho emocionalmente exaustivo e relatam que a própria função tem impacto negativo em sua saúde mental. 

Esse paradoxo — de cuidar da saúde mental alheia ao mesmo tempo em que se enfrenta sobrecarga emocional — expõe uma verdade: antes de promover programas de bem-estar para os outros, é preciso investir no bem-estar de quem está cuidando das pessoas.

A partir de 26 de maio de 2026, as organizações brasileiras terão um novo marco regulatório para esse tema com a atualização da NR-1, que passa a exigir a identificação e gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Isso significa que o RH terá papel ainda mais estratégico, pois precisará estruturar processos que identifiquem fatores de risco, promovam ambientes psicologicamente seguros e articulem práticas sistêmicas de prevenção do adoecimento mental.

No entanto, é importante destacar que a empresa não deve nem pode se tornar um serviço de saúde — ela não tem obrigação de oferecer psicoterapia nem de substituir o cuidado clínico — mas precisa criar condições de trabalho que favoreçam o bem-estar, diminuam estressores e promovam relações interpessoais saudáveis. Lideranças que negligenciam essas dimensões deixam o clima organizacional pesado e adoecedor, o que impacta diretamente a performance, a retenção de talentos e o engajamento dos colaboradores.

O engajamento, por sua vez, é mais do que a presença física no trabalho: é o vínculo psicológico que o profissional mantém com a organização, com sua missão, valores e perspectivas de crescimento. Esse vínculo só pode florescer em ambientes que, além de seguros, sejam acolhedores — onde as pessoas se sintam valorizadas e compreendidas em suas necessidades humanas básicas.

O Janeiro Branco é uma excelente oportunidade para o RH conduzir conversas, rodas de reflexão e ações de conscientização sobre a importância do autocuidado. Mas é só isso: uma oportunidade. A transformação real exige mudança cultural contínua e estruturada. Não basta uma campanha anual; é preciso que o cuidado com a saúde mental seja integrado ao dia a dia das pessoas e às práticas de gestão de pessoas — da atração ao desligamento, passando pelo desenvolvimento, reconhecimento e suporte emocional.

Parte dessa transformação começa com a autorresponsabilidade: cada colaborador, inclusive os profissionais de RH, precisa reconhecer seus limites, buscar apoio quando necessário e praticar hábitos que fortaleçam a resiliência emocional. A empresa, por sua vez, precisa oferecer suporte, ferramentas e um ambiente que legitime essas práticas sem estigma.

Cuidar de quem cuida — esse é um dos grandes desafios do RH na atualidade. O caminho cria não apenas profissionais mais saudáveis, mas organizações mais humanas, produtivas e sustentáveis. Ao refletir sobre o Janeiro Branco, o RH é chamado não apenas a pensar em campanhas, mas a exercitar sua missão de construir lugares de trabalho que promovam a dignidade, a saúde e uma vida mais plena para todos.


Fredy Figner – Psicólogo Empresarial e diretor da Fredy Explica Psicologia Empresarial.

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