Conversas Que Não Fazem Barulho
05, May. 2026
Tenho pensado ultimamente…
Aquilo ficou ecoando dentro de mim.
Será que chegará o tempo em que as pessoas deixarão de se comunicar pela
fala?
Hoje é tudo por mensagens rápidas, abreviações e emojis que tentam
traduzir sentimentos. Conversamos sem olhar nos olhos, respondemos sem
realmente escutar. Eu ainda resisto um pouco… sempre que possível, prefiro as
conversas presenciais.
Falando em
ouvir… estamos realmente ouvindo ou apenas escutando?
Quantas vezes alguém fala conosco e, enquanto as palavras chegam, nossa
mente já está preparando a resposta?
Ouvir é acolher.
É silenciar o próprio pensamento por alguns instantes para permitir que o outro
exista ali, inteiro.
Escutar é automático, parece atenção, mas é só espera pela vez de falar.
A tecnologia aproximou distâncias. Hoje podemos conversar com qualquer
pessoa do mundo. Mas, curiosamente, às vezes ela também afastou presenças.
Talvez no futuro nem precisemos mais abrir a boca para dizer o que
pensamos. Bastará tocar uma tela… ou quem sabe apenas pensar.
Mas fico me perguntando…
O que acontecerá com a voz emocionada?
Com aquilo que entendemos pelo tom de voz, pelo olhar… pelo toque de um abraço?
Com o “estou aqui” dito baixinho, quase como um carinho?
Porque falar nunca foi apenas emitir sons.
Falar é sentir junto.
É dividir o instante.
É permitir que o coração participe da conversa.
Talvez o mundo caminhe para comunicações mais rápidas, práticas e silenciosas.
Mas espero que nunca percamos algo simples e precioso: o encontro de duas ou
mais vozes que se reconhecem.
Porque existem palavras que não foram feitas para ser digitadas.
Elas foram feitas para serem ouvidas.
Hoje percebo que os jovens quase não falam mais.
Venho de uma geração em que se comunicar era conversar, olhar nos olhos, ouvir
a voz do outro. A fala era presença.
Mas, graças a Deus, estamos aqui, vivendo o nosso tempo… e viver também
é aprender a se adaptar às mudanças.
É fácil? Não.
Muitas vezes ouvimos aquela frase:
— “Nossa, a pessoa manda bom dia todos os dias… só pode ser velha! ”
E talvez seja mesmo.
Porque os mais velhos, terceira idade, melhor idade, NOLT ou
simplesmente pessoas que já viveram bastante, não enviam mensagens apenas por
hábito.
Eles querem ser ouvidos.
Querem ser lembrados.
Querem dizer, de forma silenciosa: “eu
ainda estou aqui.”
Às vezes, aquele bom dia diário é mais do que educação.
É um sinal de presença.
Porque o dia em que a mensagem não chega… pode significar que algo
aconteceu.
Entre tantas reflexões, veio à minha memória uma história que li há
algum tempo, daquelas simples, mas que ficam guardadas dentro da gente:
Encontrei a história e vou transcrever aqui...
Todas as manhãs, bem cedo, um entregador batia à porta de uma casa antiga e entregava o jornal em mãos ao senhor que ali morava.
Era sempre igual: a porta se abria, o jornal era recebido… e o ritual se repetia todos os dias, sem falhar.
Com o
tempo, o entregador começou a achar aquilo curioso. O homem não parecia
realmente interessado nas notícias. Às vezes, apenas pegava o jornal e voltava
para dentro.
Um dia,
curioso, perguntou:
— Senhor,
me desculpe perguntar… o senhor lê o jornal todos os dias com tanto interesse
assim?
O idoso
sorriu suavemente e respondeu:
— Na
verdade, não é pelo jornal.
O
entregador ficou confuso.
Então o
senhor explicou:
— Eu moro
sozinho. Não tenho família por perto. Pedi para entregarem o jornal todos os
dias porquê… assim alguém passa aqui diariamente.
Fez uma
pequena pausa e continuou:
— Se um dia
eu não abrir a porta para pegar o jornal… alguém vai perceber que algo
aconteceu comigo. Vão saber que eu ainda estou vivo… ou que precisei de ajuda.
O
entregador ficou em silêncio.
Naquele
momento, entendeu que não estava apenas entregando notícias.
Estava levando presença, segurança… e um pouco de companhia.”
Vivemos tempos em que todos parecem conectados, mas muitos seguem
invisíveis.
Às vezes, o bom dia na padaria, a mensagem enviada, a visita rápida ou
uma rotina repetida são apenas pedidos silenciosos de companhia.
Que a gente nunca deixe de perceber quem está por perto. Porque, no
fundo, todos nós desejamos a mesma coisa:
Ser vistos, ser ouvidos, e saber que nossa existência importa para
alguém.
Talvez, nas próximas reflexões, eu volte a falar sobre outras formas de
comunicação, aquelas que acontecem mesmo quando não há palavras.
Porque comunicar nunca foi apenas falar.
Talvez seja, antes de tudo, aprender a perceber o outro.
Sueli Alves
Porque toda boa conversa merece continuar...
Sueli Alves é formada em Psicologia e Pós-Graduada em Gestão de Pessoas. Com quase 40 anos de vivência na área de Recursos Humanos, Recrutamento, Seleção e Treinamento, atuou em empresas de diversos portes e segmentos. Foi coordenadora do grupo UNIRH - União de Recursos Humanos, por vinte e quatro anos. É Diretora Administrativa/Financeira da AGERH.